segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Drogas: o perigo ronda as escolas

Drogas: o perigo ronda as escolas

19 de novembro de 2009

Por Marina Dias

(Foto: Getty Images)

"Já experimentei maconha, ecstasy, LSD e lança perfume, sempre em festas e na companhia de amigos. Na minha escola, entre os mais velhos, difícil é achar quem nunca usou nenhuma dessas coisas". A declaração é de uma garota de apenas 14 anos, que estuda em um colégio de classe média de São Paulo. Há ainda um dado a ser acrescentando na já preocupante relação entre jovens e drogas: a escola, local onde crianças e adolescentes passam a maior parte do tempo, vem se tornando a porta de entrada para o mundo da experimentação.

"É ali que os jovens aprendem a beijar e têm sua iniciação sexual, mas também pode ser ali o lugar onde eles terão o primeiro contato com as drogas", afirma Ronaldo Laranjeira, psiquiatra e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Geralmente, a experiência começa com drogas legais, como álcool, tabaco e cola de sapateiro. Em seguida, entram as drogas ilícitas e, entre essas, a maconha está em primeiro lugar quando se trata de ambiente escolar."

Não há números globais sobre a penetração das drogas na escolas brasileiras. Contudo, a impressão generalizada e os dados esparsos indicam que ela avança. "Pesquisas locais já apontavam para o uso precoce dessas substâncias", revela Paulina Vieira Duarte, titular da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad).

Aula anti-droga - O problema já bateu às portas da cúpula da educação pública no Brasil. Prova disso é que, no próximos dia 17, professores de todo o país encerrarão um curso de capacitação à distância para lidar com o assunto. A ação é uma parceria entre o Ministério da Educação (MEC), a Universidade de Brasília (UnB) e a Senad.

O objetivo é formar profissionais capazes de abordar adolescentes já usuários de drogas e conscientizar aqueles que ainda não se envolveram com esse tipo de problema. Constam do treinamento também orientações sobre como lidar com uma constatação crescente: o consumo e eventualmente até o tráfico de drogas se dá dentro dos muros da escola.

O crescimento do números de profissionais treinados pelo MEC dá uma ideia da evolução desses problemas: em 2004, na primeira edição da capacitação, foram 5.000 educadores provenientes de mil escolas públicas do país. Neste ano, serão 25.000, de 4.658 unidades de todos os estados.

"A ainda há uma demanda reprimida de mais de 15.000 vagas", afirma Paulina, da Senad. "Precisamos preparar os professores para que eles saibam abordar o problema de drogas nas escolas, além de realizar o encaminhamento adequado para a rede de serviços de atenção a usuários e seus familiares".

De acordo com pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) da Unifesp, 57% dos jovens entre 12 e 17 anos consideram que obter drogas em "qualquer momento" é "muito fácil". Em 2001, 48,3% já tinham ingerido álcool; três anos depois, eram 54,3%. O consumo de maconha também subiu: de 6,9%, em 2001, para 8,8% em 2005.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Seja otimista e viva mais

Seja otimista e viva mais


Tudo é uma questão de ponto de vista. O fato é que encarar a vida de maneira positiva e enxergar as dificuldades como desafios garante mais saúde e longevidade, segundo novas evidências científicas

por Adriana Toledo
design Thiago Lyra
fotos Dercílio

Ser otimista é acreditar que o futuro reserva boas perspectivas e que é sempre possível encontrar uma solução para as adversidades. Na literatura, esse comportamento é representado — embora de maneira um tanto caricata — por célebres personagens, como Pollyanna, da escritora americana Eleanor Porter (1868-1920), e Cândido, do filósofo francês Voltaire (1694-1778). Eles têm em comum uma trajetória marcada por dificuldades e acontecimentos trágicos, que ambos enfrentam sem nunca perder a esperança de dias melhores.

Na vida real, é possível ser otimista sem tirar os pés do chão. “Para isso, é preciso analisar cenários, avaliar riscos e buscar saídas para um desfecho positivo, sem desanimar diante de obstáculos”, ensina a psicóloga Mirlene Siqueira, que estuda o assunto na Universidade Metodista de São Paulo. E acredite: olhar a vida por esse prisma não só promove bem-estar mental como faz um bem danado ao corpo. A conclusão é de pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, que acompanharam quase 100 mil mulheres durante oito anos.

O grau de otimismo das voluntárias foi mensurado por meio de questionários em que elas deveriam responder se concordavam com afirmações como “Em épocas de incerteza, eu sempre espero o melhor” ou “É mais seguro não confiar em ninguém hoje em dia”. O resultado da avaliação revela que as mais esperançosas apresentam um risco 9% menor de desenvolver problemas cardíacos e 14% menos probabilidade de morrer devido a qualquer outra doença sem ser do coração. “Quem pensa positivo costuma fumar menos, se alimentar melhor e se exercitar mais, sem contar que tem menor tendência a desenvolver depressão, estresse e pressão alta”, justifica a SAÚDE! a autora da pesquisa, Hilary Tindle.

O benefício também se aplica ao sexo masculino, de acordo com um estudo realizado no Instituto de Saúde Mental, na Holanda, com 545 participantes. No grupo de homens que acreditavam piamente que seus projetos se realizariam, houve uma redução de até 50% nas mortes por males cardiovasculares. Erik Giltay, líder do trabalho, arrisca uma explicação: “Essa postura provavelmente estimula o organismo a liberar substâncias como a serotonina e a dopamina, que afastam o nervosismo e protegem os vasos”.

Por falar em boas expectativas, eis um artigo que não está em falta entre nós brasileiros. “Desenvolvemos uma pesquisa comparando o otimismo no Brasil, nos Estados Unidos e na França”, conta a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil. “Obtivemos o maior percentual, 67%, contra 54% dos americanos e 49% dos franceses.”

Ninguém precisa se tornar discípulo convicto de Cândido ou Pollyanna para ter uma atitude mais otimista diante de tudo. Dá para seguir essa via até mesmo num mundo tão competitivo e cheio de dificuldades — onde Pollyannas são esmagadas sem dó nem piedade. Ou seja, ninguém sugere que você deva adquirir uma visão edulcorada dos fatos, ignorando os riscos e os fracassos do cotidiano. “Além de gerar frustração, esse pensamento é ilusório, uma espécie de fuga ou defesa”, avisa Ana Maria Rossi.

“Otimismo requer, ao contrário, muita sensatez, consciência das limitações e capacidade de encarar a realidade, de buscar alternativas para contornar um impedimento”, explica Mirlene Siqueira. “Para isso, é preciso conhecer suas próprias habilidades, fraquezas e o contexto de determinada situação.” Autoestima, inteligência emocional, determinação, persistência e coragem, portanto, são características fundamentais nesse processo.

Mas quando, afinal, a ausência de uma perspectiva positiva representa um problema? Simples: “Quando a expectativa sempre negativa começa a afetar a qualidade de vida e a diminuir o interesse por coisas que antes proporcionavam prazer”, responde Erik Giltay. Na maioria das vezes, o indivíduo passa a imaginar que seus projetos nunca serão bem-sucedidos e desiste de tentar, o que elimina de vez qualquer chance de êxito. Daí, a decepção se torna algo frequente.

É claro que desilusões, perdas e insucessos pontuais podem deflagrar um pessimismo temporário. “Por isso, diante da morte de um ente querido ou da perda de um emprego, por exemplo, é importante buscar apoio social, nos amigos e familiares, para recuperar a positividade”, aconselha Ana Maria. Até mesmo a religião, a leitura de um livro com conteúdo estimulante ou o relato de uma história com final feliz dão uma ajuda extra em momentos assim. “E, se algo simplesmente não saiu como o planejado, o ideal é refletir sobre o que desencadeou o resultado frustrante e seguir em frente”, completa a psicóloga Marília Dela Coleta, da Universidade Federal de Uberlândia, no interior de Minas Gerais.

No entanto, se a pessoa passa a se comportar como se sempre tivesse uma nuvem negra sobre a cabeça, esse dia a dia nublado se torna um indicador de distúrbios psiquiátricos como depressão, transtorno de pânico ou distimia, o mau humor crônico. Nesses casos, a recomendação é buscar o auxílio de um profi ssional especializado em saúde mental. A psicologia costuma dar uma boa contribuição. “A terapia cognitiva ensina o paciente a mudar a forma de interpretar os fatos, e a comportamental lhe fornece elementos para que ele aprenda a substituir as reações antigas por outras mais saudáveis”, explica Ana Maria.

Há também uma linha de terapia recente chamada psicologia positiva que pode auxiliar os descrentes de plantão. “Ela se dedica a levar o indivíduo a compreender os sentimentos de felicidade, de bem-estar e de satisfação”, diz Marília Dela Coleta. No final das contas, o otimismo é uma questão de treino. E, se não dá pra ser feliz e acertar o tempo todo, pelo menos é possível viver sempre disposto a retomar a tal da felicidade (e, com ela, a saúde).


Créditos: http://saude.abril.com.br/edicoes/0316/bem_estar/conteudo_507248.shtml?pag=1

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quem assume o fracasso escolar?

Quem assume o fracasso escolar?

É obrigação do gestor garantir que os estudantes aprendam. Será que ele conhece e desempenha essa tarefa com responsabilidade?

Fernando José de Almeida

Foto: Marcos Rosa
"Os diretores acham que os alunos têm mais responsabilidade que eles quando não aprendem. Assumem a tarefa, mas não o fracasso dela." Foto: Marcos Rosa

A rotina de todo diretor é marcada pela variedade de atividades. Ao chegar à escola, o que ele planejou fazer naquele dia geralmente se perde em meio às emergências que surgem de todos os cantos. O telhado mal vedado, a falta de um professor, o acidente de um aluno, o recurso que não chegou. Tudo o obriga a reorganizar o plano de trabalho, sem poder adiar ou cancelar, é claro, as prestações de contas, as reuniões na Secretaria de Educação e a visita dos familiares dos alunos. Assim, as funções primordiais do cargo vão se perdendo e correm o risco de cair no esquecimento. Aliás, quais são elas mesmo?

Uma pesquisa feita pela Fundação Victor Civita (FVC), em parceria com o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), constatou que o dia a dia do gestor é mais marcado por essas tarefas do que pelo que seriam as três principais preocupações inerentes ao cargo: dirigir a relação entre ensino e aprendizagem, orientar para o saber e gerenciar o conhecimento.

Se a escola é o lugar formal do conhecimento, onde se formam o trabalhador de amanhã, o leitor e o escritor competente e o indivíduo ético, nada mais óbvio que a instituição tenha de ser bem gerida em todos os aspectos para funcionar com êxito. Porém a falta de uma visão integrada entre o administrativo e o pedagógico leva os diretores a outro equívoco, também apontado no estudo: nenhum dos gestores entrevistados atribui a si próprio a responsabilidade pelo baixo desempenho dos alunos. Há outros fatores que também espantam. Eles creditam a culpa pelos resultados ruins das escolas, no que diz respeito à aprendizagem, ao governo (48%), à comunidade (16%), aos professores (13%), aos alunos (9%) e até mesmo à escola (7%) - como se a instituição fosse um elemento independente de suas esferas constituintes.

Com isso, fica evidente que eles ainda desconhecem sua máxima obrigação e resumem sua atuação à burocracia. Mesmo que existam os coordenadores pedagógicos e as universidades e as Secretarias de Educação colaborem com o processo de formação em serviço dos docentes, a responsabilidade pelo desempenho insatisfatório dos alunos é do gestor. Durante as entrevistas da pesquisa, eles só assumem que a aprendizagem também os compete quando questionados diretamente sobre ela. Para que a direção da escola fosse citada (e ainda assim pouco responsabilizada) pelos entrevistados, foi preciso que os pesquisadores perguntassem a todos quem era mais responsável pelo aprendizado dos alunos. Assim, eles apontaram, em primeiro lugar, a comunidade (45%). Depois, os professores (42%), os alunos (29%) e só então a direção (26%) - esses e outros resultados são o tema da reportagem de capa da revista GESTÃO ESCOLAR de outubro/novembro. Os porcentuais indicam com clareza que os diretores acham que os alunos têm mais responsabilidade que eles se não aprendem. Assumem a tarefa, mas não o fracasso dela.

É como se o mundo da Educação vivesse o mesmo problema que recai sobre a seleção brasileira de futebol em época de Copa do Mundo. Todos se sentem técnicos e julgam ter as melhores estratégias para vencer um jogo. Mas ninguém se sente culpado quando a derrota ocorre e o problema fica no ar, sem autor. Por isso, o governo aparece na pesquisa como o primeiro responsável pelo fracasso: é uma estrutura impessoal, etérea, fluida, que funciona como se não tivesse sido eleita por ninguém.

O diretor não está sozinho nesse pensamento equivocado. Todos temos uma porção de responsabilidade. Ainda assim, é urgente o entendimento de que o gestor que não assume a tarefa de garantir a aprendizagem das crianças não compreende seu papel.

Fernando José de Almeida

É filósofo, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e vice-presidente da TV Cultura - Fundação Padre Anchieta.

Créditos: http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/diretor/quem-assume-fracasso-escolar-502537.shtml


Mais sobre o papel da responsabilidade escolar

Reportagens

TAREFA: O aluno deverá fazer um comentário apontando sugestões de ações que possam auxiliar o Diretor em meio à dificuldade exposta acima. Conforme nossos termos, não podem ser copiadas frases prontas de outros comentários.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Lançamento colaborativo: WEB 2.0 - ERROS E ACERTOS



O Preparando a Redação está participando do lançamento de um trabalho merecedor de grande divulgação. Trata-se do eBook Web 2.0 - Erros e Acertos - Um guia prático para o seu projeto, de Paulo Siqueira.

A divulgação é parte de um processo colaborativo envolvendo mais de 80 blogs e o Twitter. A licença é Creative Commons.

No eBook Web 2.0 – Erros e Acertos – Um Guia prático para o seu projeto, Paulo Siqueira explica, em linguagem clara e didática, como concebeu, desenvolveu e colocou em prática um projeto para a Web, passando pelo planejamento, programação, publicidade online e finalmente a execução.

É um relato prático e real, interessante para estudantes, professores, programadores, analistas, desenvolvedores, gerentes de projeto, executivos de Tecnologia da Informação, blogueiros, jornalistas de tecnologia, enfim, serve para qualquer pessoa que tenha curiosidade, interesse e quer saber mais sobre como fazer ou como funciona um projeto para a Web.

Paulo Siqueira, 53 anos, tem mestrado em Engenharia de Software pelo IPT. É professor universitário. Trabalha para a UNICEF, no Paquistão, como Gerente de TI. Trabalhou para Seven Networks International, UN-ICTY, Banco Mundial, IFES-USAID, UNDP-PAPP, UNV-PNUD e ICS-UNIDO, e Banespa-Santander, em diferentes lugares do mundo.

As ilustrações são de Orlando Pedroso, artista gráfico, colaborador da Folha de São Paulo, revistas da imprensa e livros infanto-juvenis.

O prefácio é de Gilson Schwartz, economista, sociólogo e jornalista, professor de Iconomia no Curso Superior do Audiovisual e coordenador do grupo de pesquisa Cidade do Conhecimento da USP (www.cidade.usp.br).

Seguindo o Projeto Preparando a Redação, a partir desta etapa desejamos que nossos alunos e apoiadores possam conhecer melhor o funcionamento da web e também possam se tornar blogueiros.

Estamos também participando do evento através do Facebook através de nosso perfil: http://www.facebook.com/profile.php?id=1354408035&ref=profile

Faça agora o download do eBook Web 2.0 – Erros e Acertos – Um Guia prático para o seu projeto.

Estão participando do lançamento do Web 2.0 - Erros e Acertos - Um guia prático para o seu projeto, dentre outros, os seguintes blogs:
Irradiando Luz, Blog de Seo e Webstandards, Luz de Luma, yes party!, Cova do Urso, Grãos de Areia pelo Infinito, Nota Zer0!, TecnoCT, Antes da HORA, Virtual Z1, Lar da Veterinária, Origine Italiana, Arthur Araujo, Luana Giampietro, Notícia e blog, [In]Commun Séries, Blogando com Vc!, Grupo NGJ, Voxtopia, pribi.com.br, Blog da Mari Rocha, Unidade Avançada, Blog Windows Brasil, Preparando a Redação, Usuário Nokia, Léo.Lopes – Portfólio, Códigos Blog, Brasil Critical, Security Total, Ricardo Campos: Reflexione, Actividade, Açaí Grosso, Muleque Doido, Ernandes Rodrigues, cajuinas, Educação a Distância, WebGringos, Midlife, Berdades da Boca P’ra Fora, My Percepções, Liso-Sapiens, Blogger Pessoal, Neurônio 2.0, The worst kind of thief, Thiago Antonio, Abre Aspas, Sedentarismo Intelectual, PopNutri.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Eu quero ficar sozinho

Eu quero ficar sozinho

É cada vez maior o número de pessoas que vivem sós. Mas isso não significa necessariamente sofrimento. Conheça os segredos dos solitários que são felizes

Claudia Jordão e João Loes


Foto: Frederic Jean/ Ag. istoé








NO CÉU Célio Ashcar, 33 anos, mora só em São Paulo: vida sem horários










No lugar das tradicionais e efusivas discussões familiares, o jantar é marcado pelo tilintar de apenas um par de talheres. Em vez de crianças eufóricas correndo pela casa, os corredores estão vazios e silenciosos. Antes de dormir, não há companhia para ver tevê. A tendência é mundial. Cada vez mais homens e mulheres moram sozinhos. Na Inglaterra, o índice de domicílios habitados por uma única pessoa é de 30%. Nos Estados Unidos, alcança os 25% - em Nova York, a meca dos solteiros, mais da metade da população (50,6%) vive só. No Brasil, o número de indivíduos que moram sem companhia também aumenta a cada ano. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2008, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 11,6% dos brasileiros não dividem o teto com ninguém. Há dez anos, esse índice era de 8,4%.

Até recentemente, o "morar só" era inevitavelmente relacionado a "ser só". E essas pessoas, geralmente com problemas de relacionamento ou idosos, carregavam o estigma de isoladas e abandonadas. Hoje, essa condição virou um estilo de vida, graças a um boom de jovens que têm deixado a casa dos pais em busca das tão almejadas liberdade e autonomia. Segundo uma corrente de cientistas sociais com voz cada vez mais ativa, quem mora sozinho é menos solitário do que se supunha e desfruta da vida em comunidade. "Muitos são jovens independentes, que consideram isso uma conquista", diz o sociólogo e cientista político Antonio Flávio Testa, professor da Universidade de Brasília (UnB). "Eles batalharam para ter seu canto e não se sentem sozinhos porque têm o apoio de familiares e amigos."

Rotina A vida agitada das grandes cidades contribui para o desejo das pessoas de se isolar

A tendência começou a ser moldada há duas décadas na Europa. Naquela época, os países desenvolvidos registravam um aumento significativo na expectativa de vida de seus cidadãos. Com isso, os idosos passaram a ter uma vida autônoma. Na maioria das vezes, eram senhores (as) viúvos (as). O perfil desse morador está se transformando, especialmente nos grandes centros urbanos, onde é comum ver jovens independentes partindo para uma vida solo. Não é, necessariamente, uma condição definitiva.

Ao encontrar um parceiro, eles deixam para trás os dias de egoísmo, as vantagens de não ter de dar satisfação a ninguém e o conforto de ter uma casa só deles para dividir o espaço das escovas de dente e constituir família. No Brasil, a maioria dos moradores solitários continua sendo a população mais velha - 40% têm mais de 60 anos. Mas as faixas etárias mais jovens estão ganhando espaço: 11,4% deles têm entre 20 e 29 anos e 13,2%, entre 30 e 39 anos. "O ato de morar sozinho, que outrora evocava debates sobre solidão, começa a ser associado a melhores condições de vida", analisa a socióloga Ana Lúcia Sabóia, do IBGE.

REDE Amigos ajudaram Susane Rabelo a superar um divórcio

O empresário Célio Ashcar Jr. é um representante desta tendência. Aos 33 anos, ele vive só e feliz num apartamento no bairro da Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Até 2003, morava com o pai. Assim que se tornou sóciodiretor da agência de promoção e eventos na qual trabalhava, se sentiu seguro para partir para morar só. "Minha casa é meu templo, onde recarrego as energias e pesquiso referências para o meu trabalho", diz ele. Ashcar adora sua rotina, especialmente pela liberdade que conquistou. "Não tenho horário para chegar em casa, por isso seria impossível comparecer a jantares com hora marcada", diz.

Com uma maior inserção no mercado de trabalho, o contingente feminino também conquistou sua independência. Até alguns anos atrás, a mulher que morava sozinha era estigmatizada, carregava a pecha de mal-amada ou abandonada. "Hoje, aceitamos melhor quem faz essa opção", diz Henriette Morato, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). "É preciso se descobrir e curtir, antes de casar e engravidar. É uma fase muito importante."

A secretáriaexecutiva Juliana Melo, 29 anos, tem essa consciência. Aproveita a vida de solteira sem amarras e cuida da sua casa com prazer. Juliana deixou a casa dos pais para morar com amigas, há dez anos. Há um ano e meio, vive só num apartamento no bairro do Itaim, em São Paulo - a algumas quadras de seu trabalho. Isso lhe permite caminhar até lá, o que numa metrópole significa qualidade de vida. "Considero ter meu próprio espaço uma vitória", diz ela.

INTERNET Nello Sampaio: muitos amigos virtuais e poucos reais

De olho neste filão, as empresas investem no mercado single, como é chamado este nicho, sobretudo os setores de alimentos, imóveis e serviços. Até recentemente, os solteiros viam produtos estragar nas geladeiras, porque eram obrigados a comprar quantidades além do que seriam capazes de consumir. Hoje, é possível encontrar nas gôndolas de supermercados itens voltados para eles. São frutas, verduras e legumes lavados, cortados e dispostos em pequenas quantidades, caixas de ovos com seis unidades, porções de torradas embaladas duas em duas e pratos individuais congelados. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Alimentícias (Abia), o mercado single de alimentos começou a ser estimulado há uma década e, desde então, cresce de 6% a 7% ao ano.

Na área imobiliária, proliferam empreendimentos com serviços especiais. Em São Paulo, a Construtora Gafisa está erguendo o edifício Vision, no bairro do Campo Belo, que possui concierge, para quem não gosta ou não tem tempo de arrumar o apartamento, e serviços "pay-per-use", que oferecem "babá de cachorros", por exemplo, para quem está disposto a pagar uma taxa extra. O sucesso foi tanto que a empresa se prepara para lançar em breve um segundo empreendimento como esse.

Tese Para especialistas, a efervescência das metrópoles estimula a vida em comunidade

A vida agitada das metrópoles contribui para o desejo das pessoas de ficarem sós, de curtirem o silêncio de suas casas, de lidarem com os afazeres do seu próprio jeito. A psicóloga Henriette Morato acredita que é o excesso de relações pessoais que temos no dia a dia que exige um tempo para reavaliações. "Desde que acordamos, nos relacionamos com muita gente por obrigação, seja no elevador do prédio, seja na academia, no trabalho ou na faculdade", diz. "São todos contatos muito fluidos, que exigem de nós um tempo para digerí-los e assimilá-los até mesmo para nos reconhecer como indivíduos ou cidadãos." Segundo ela, o momento de solidão funciona como um mecanismo de defesa da pessoa, para que ela não se sinta diluída em meio a tanta informação e influência externa.





































































































Os grandes centros urbanos sempre foram considerados os maiores vilões das relações interpessoais. Mas, agora, há uma corrente de pensadores que sustenta o oposto. Liderados pelo psicólogo americano John Cacioppo, diretor do Centro de Neurociência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago e autor de uma série de estudos sobre o tema, um grupo de acadêmicos tem defendido que metrópoles do porte de Nova York, Tóquio e São Paulo não contribuem para o distanciamento de seus moradores. Pelo contrário, estimulam a vida em comunidade, graças à sua efervescência. "Não é o número de ssrelações pessoais, mas a qualidade delas, que determina se uma pessoa se sente ou não sozinha", disse Cacioppo à IstoÉ. "Então, não é o tamanho das cidades que importa, mas a maneira como cada um se relaciona com a sua vizinhança - e isso vai depender da personalidade de cada um."

Para defender esta tese, Cacioppo usa seu estudo de caso sobre a Grand Central Terminal, estação que integra trens metropolitanos e metrô em Nova York e é o maior terminal de trem do mundo em número de plataformas. Ele argumenta que a sensação ao chegar ao local é de que pessoas se deslocam solitárias na multidão. Como se cada uma seguisse seu caminho, no seu ritmo, com os seus pensamentos e alheia aos demais. No entanto, ao olharmos com mais atenção, percebemos interação entre elas. Há turistas pedindo para nova-iorquinos tirar fotos deles, amigos se encontrando, outros se despedindo. Para o psicólogo, que integra uma corrente evolucionista e acaba de publicar o estudo "Loneliness" (Solidão), nossa espécie não teria sobrevivido por tanto tempo sem o que chama de "instinto de cooperação social".

OFERTA Os setores de alimentos, imóveis e serviços investem neste mercado

A gerente administrativa Susane Rabelo, 48 anos, é prova de que os contatos pessoais são fundamentais para sobreviver na cidade grande. Por causa da vida profissional, há 15 anos, ela deixou a família em Belo Horizonte, em Minas Gerais, para morar na capital paulista. Apaixonou-se e se casou na cidade.

NOVA VIDA Juliana Melo mora há um ano e meio sozinha: "É uma vitória", afirma

A união durou 12 anos e, desde 2005, mora sozinha. Ou melhor, na companhia de Billie Holiday - cadela que ela herdou com o fim do casamento sem filhos. Susane conta que só suportou a ausência da família, especialmente na fase do divórcio, graças aos fortes laços de amizade que construiu em São Paulo. Ela tem seis grandes amigos - uma comprovação da tese de que metrópoles podem aproximar solitários e estimular comunidades. "Como boa mineira que sou, gosto de receber em casa, nem que seja para um café", diz ela.

Na era da internet, as relações virtuais ganharam espaço. Mas nem sempre ter uma imensa quantidade de amigos na rede significa se sentir acolhido e amparado. Dono de uma casa noturna na Barra da Tijuca, o empresário angolano Ermenegildo Nello Sampaio, radicado no Rio de Janeiro, parece enturmado à primeira vista. Graças à sua sociabilidade, todas as sextas-feiras e sábados, ele consegue lotar sua casa noturna com capa cidade para 350 pessoas. Sua lista de contatos no comunicador instantâneo MSN soma 250 pessoas e na rede social Orkut, 200. "Tenho muitos colegas, aos quais me refiro como 'amigos da noite'", diz ele. "Amigo de verdade, tenho apenas um, que nem sempre está presente."



A exemplo de Sampaio, é bastante comum que pessoas com muitos amigos virtuais em redes sociais, como Orkut, Facebook e MySpace, sintam-se isoladas, sem alguém para falar sobre assuntos íntimos. "A internet conforta o solitário apenas num primeiro momento, pois ele se sente integrado a um grupo", diz Caccioppo, que também estuda este tema. "Mas, com o tempo, o bem-estar se esvai, porque ele percebe que as relações não se aprofundam e isso traz mais infelicidade." Para Cacioppo, as redes sociais são positivas quando servem de suporte às amizades, e negativas quando se tornam a principal via de comunicação entre as pessoas.

SINAL A solidão é um tipo de alarme, que soa quando a coesão do grupo é necessária

Conseguir se integrar a outra cultura, com códigos, expectativas e pressupostos diferentes, é um dos grandes desafios do ser humano. O lutador Glover Teixeira, 29 anos, que nasceu no Brasil, mas mora nos Estados Unidos desde 1999, sofreu com a maneira de viver, individualista e solitária, dos americanos. "Por ser latino, eu achava que teria mais facilidade para fazer amizades lá", diz. "Mas a verdade é que foi muito difícil, pois eles são muito fechados." Atualmente, Teixeira tem três amigos fiéis, todos nascidos nos Estados Unidos, o que considera uma grande conquista. Um estudo revelou que os americanos estão cada vez mais sozinhos, sem ter com quem compartilhar seus dramas pessoais.

A pesquisa The American Sociological Review revela que, em 1985, os americanos tinham em média três pessoas a quem podiam confiar sua intimidade. Em 2004, esse número caiu para dois indivíduos. O trabalho mostra ainda que, nesse período, o total de americanos sem alguém para abrir o coração subiu de 10% para um quarto da população.














RECOMEÇO Glover Teixeira foi viver nos EUA e fez novas amizades













Segundo Cacioppo, assim como a fome, a solidão é um tipo de alarme, que soa sempre que a coesão do grupo se torna necessária. "Nossos ancestrais se reuniam para se defender de ataques de predadores", diz o pesquisador. "Hoje, nos estressamos por razões diferentes e precisamos dos outros por motivos distintos, como para organizar a nossa rotina, para prosperar ou mesmo sobreviver." De acordo com o sociólogo Antonio Flávio Testa, da UnB, ao se sentir sozinho, o indivíduo saudável não paralisa. "Ele sai de casa, vai à balada, recorre à igreja, busca ajuda profissional", diz. "Quem se sente só e não se movimenta, sofre de alguma patologia, como depressão."

Há pessoas que se sentem sozinhas cercadas por uma multidão e as que ficam à vontade até mesmo na aridez de um deserto - e aí, quase não faz diferença se a pessoa divide ou não o mesmo teto com alguém. "A solidão não é uma condição, é um sentimento", diz a psicóloga Magda Maetta. "Ela é vivida por cada um de maneira particular." O psicanalista e doutor em psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Sergio Cwaigman Prestes afirma que a dificuldade em ficar sozinho pode estar relacionada a conflitos de personalidade. "Geralmente, são pessoas que não aceitam alguma característica sua", diz.

RAIZ Viver sozinho é uma tendência que começou a ser moldada há 20 anos na Europa

A solidão traz sérios riscos à saúde de quem sofre seus dissabores. De alguns anos para cá, uma série de estudos vem sendo publicada sobre o sentimento e suas consequências mentais e físicas (leia quadro). O mais recente deles, realizado pela Universidade de Cornell (EUA) e divulgado em março, revela que idosos solitários apresentam mais problemas mentais e físicos do que velhinhos que têm companhia. Pessoas nessas condições desenvolvem baixa autoestima, que pode virar depressão. Além disso, idosos desacompanhados correm mais risco de sofrer quedas ou de esquecer de tomar sua medicação.

Outro estudo, de fevereiro, compara os males da solidão com os relacionados à obesidade e ao fumo. Nesse caso, os riscos em comum são pressão alta, imunidade baixa e insônia. O sentimento também dificulta a cura do câncer. Viver só não significa estar condenado à solidão. O saudável é equilibrar os momentos de isolamento e reclusão com os de interação com a família e amigos. Assim, é possível ser feliz sozinho.

Tarefa: Os alunos deverão estar reunidos em duplas. Cada um deverá ter lido o texto antes do comentário. Após, em uma única postagem, a dupla deverá se manifestar, um com argumentos contrários e outro com argumentos favoráveis ao texto. Mesmo que a postagem seja feita por dupla, cada comentário deverá estar identificado por aluno. Comentários fora do proposto não serão aceitos.


Créditos: Revista Istoé http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2085/artigo154639-1.htm


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Cancelamento do Enem gera dúvida, incerteza e descrédito entre estudantes

Cancelamento do Enem gera dúvida, incerteza e descrédito entre estudantes

Alunos temem confusão no calendário dos vestibulares e até novas fraudes

Fernanda, feliz ao ser premiada com o 1º lugar no Simuladão Enem do GE. "Dedicação não foi à toa", acredita

por Felipe van Deursen


“Fiquei sabendo do adiamento do Enem pelas minhas amigas, assim que cheguei na escola. Não acreditei, era impossível, como a prova mais importante do Brasil tinha sido roubada?”. Incrédula, Karolina Magalhães ligou para a mãe, a fim de comprovar a história.
-Baixe a prova do Enem que foi cancelada

Aos 16 anos, a garota, de Taboão da Serra (SP), é mais uma na massa de mais de 4 milhões de estudantes que tiveram que lidar na manhã de hoje com uma mudança brusca e inesperada no calendário de um dos anos mais importantes de suas vidas. “Não sei como será” foi a expressão que eles mais usaram quando perguntados sobre o problema.

O Enem foi cancelado a dois dias da prova, devido ao vazamento do exame. A nova data para o exame ainda não foi anunciada, mas Fernando Haddad, ministro da Educação, adiantou que ela acontecerá em no mínimo 45 dias, ou seja, no fim do ano, época mais intensa de vestibulares.

“Na escola, o diretor conversou com os alunos. Mas não tem muito o que falar. É um absurdo. Ele só tentou nos deixar calmos. Ficou dizendo que estávamos bem preparados e que em 45 dias a prova ia sair, que não era para a gente se preocupar”, diz Karolina.

Leia mais: ministro diz que adiamento não interferirá na agenda do ProUni e das universidades federais

DESACREDITADOS
“A única vantagem é que domingo é meu aniversário, não vou mais comemorar fazendo o exame”, brinca Nicole Camargo Sega, que fará 18 anos quando deveria estar realizando as provas de Linguagens, Matemática e Redação. “Agora não sei mais, vai que cai no mesmo dia de um vestibular?”, diz a estudante de Santo André (SP), que quer fazer Medicina. “E se as faculdades voltarem atrás, não aceitarem mais a nota do Enem como disseram que iam aceitar esse ano?”

Fernanda Maria Carvalho, 19 anos, ficou decepcionada com a notícia. “O pior não é nem cancelarem. Uma fraude no meio do processo, a dois dias da prova, dá muita insegurança”, diz. “A sensação é de que foi todo um esforço em vão. Tudo bem, vão adiar, mas quem garante que não vai ter fraude de novo, que dessa vez ninguém vai descobrir, que eles vão vender a um aluno com condições de pagar?”, desabafa a estudante, quarto ano consecutivo prestando vestibular na luta por uma vaga de Medicina na USP, Unicamp ou Unifesp.


A mãe de Fernanda, Cristina Portela, reverbera a insatisfação da filha. “Ela está muito aborrecida. O MEC, o Enem, o Inep, todos perdem credibilidade. Se alguém é capaz de vender a prova por R$ 500 mil, por que não venderiam de novo na próxima vez?”, questiona.

A estudante Bruna Serrano Silva, 16 anos, acredita que o vazamento da prova vai repercutir mal para o Brasil. Ela é aluna do segundo ano do Ensino Médio e quer fazer Moda ou Psicologia. “Pelos simulados que vinha fazendo na escola, achei o novo Enem até mais fácil que o antigo, apesar de ter mais questões e mais conteúdo. Mas agora, vá saber? O próximo exame pode ser mais difícil, não dá para saber mais nada”.

Daniel Vasconcelos, 19 anos, de Taboão da Serra (SP), está menos preocupado. “Não vai mudar minha preparação para a prova. Só o fato de me dedicar à Fuvest me deixa pronto para o Enem também”, acredita. Ele tampouco se intimida com as mudanças da prova. “É para todo mundo, o que pode me atrapalhar deve atrapalhar os outros também.”

PROBLEMAS COM LOCAIS DA PROVA
Antes do vazamento do Enem, o maior problema eram os locais da prova. Muita gente mora a quilômetros de distância do lugar em que faria a prova. “Eu moro na Lapa, faria a prova em Santo Amaro”, diz Fernanda Carvalho, citando os 20 quilômetros que separam os dois bairros paulistanos.

“Tudo bem que tenho como ir de carro, mas e quem tivesse que ir de ônibus? E, nos casos mais extremos, em outras cidades, que teve gente que precisou até de hotel para ficar na véspera?” Bruna Silva não teve esse problema, mas lembra uma amiga que sairia de Cotia para fazer a prova em Cubatão, ambas no estado de São Paulo e distantes 88 quilômetros. Todos os alunos entrevistados conhecem pelo menos uma pessoa que enfrentaria o problema da distância no fim de semana.

Em ano de gripe suína – que mudou o calendário escolar em diversos estados – novo Enem e novas propostas do MEC, muitos estudantes se sentem desnorteados. “O ministério não ajuda a gente. É muita confusão para um ano só”, completa Fernanda.

(colaboraram Mariana Nadai e Cláudia Fusco)

Créditos: http://guiadoestudante.abril.com.br/vestibular/enem/cancelamento-enem-gera-duvida-incerteza-descredito-estudantes-502538.shtml

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sábado, 26 de setembro de 2009

Revolução na escola

Revolução na escola
Como o novo Enem vai mudar a forma de transmitir e avaliar o conhecimento nas instituições de ensino. E essas transformações começam na alfabetização

Francisco Alves Filho e Suzane G. Frutuoso


FOTOS: JULIA MORAES, FREDERIC JEAN - AG. ISTOÉ. AR

Uma nova educação está batendo às portas das escolas brasileiras. Com atraso, é verdade. Durante décadas nosso aprendizado permaneceu focado em ler, escrever e calcular. Educadores e governo esqueceram que o ser humano precisa de compreensão ampla sobre o cotidiano e o mundo para interagir de maneira saudável com a vida. Agora, o pensar será privilegiado no lugar do simples memorizar.

O novo conceito do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a ser testado nos dias 3 e 4 de outubro, será o passo decisivo de uma revolução na educação do País. Para os alunos se saírem cada vez melhor nele e terem a oportunidade de ingressar em universidades de qualidade, as escolas já estão repensando o jeito de ensinar, desde a educação infantil.

Confiança no conteúdo
Felipe e Andressa: bem preparados com o ensino do Vértice, em São Paulo

Em maio foi divulgada a reformulação da prova, criada em 1998. As alterações serão decisivas para boa parte dos cerca de 1,5 milhão de estudantes que ingressarão na universidade no ano que vem. Se antes as 63 questões cobravam organização de informações, interpretação de textos e gráficos, mas num apanhado de testes engessados por disciplinas sem diálogo entre si, na atual versão haverá uma divisão por áreas (leia quadro à pág. 84).

Isso exige raciocínio lógico, compreensão do conteúdo estudado no ensino médio e o uso do conhecimento de disciplinas distintas em uma mesma solução. A prova será mais trabalhosa, com 180 questões de múltipla escolha (além da redação), e em dois dias de testes.

O modelo é parecido com o SAT, elaborado em 1926, nos Estados Unidos, para o ingresso nas universidades americanas. Como o método prima pela excelência, a famosa decoreba não tem vez. Será assim também com o novo Enem. E é justamente o que obrigará as escolas a se adaptar

"O saber é mutável e, hoje, atualizado com rapidez", diz Neide Noffs, diretora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Em curto prazo, memorizar é irrelevante. Iniciativa e entendimento devem ser estimulados."

Para isso, as instituições de ensino terão de oferecer aos estudantes a oportunidade de debater um mesmo assunto em várias matérias do currículo escolar, de maneira integrada. No Colégio Rio Branco, em São Paulo, temas da atualidade, como a gripe suína, são enfocados do ponto de vista da geografia, da matemática, da história, da sociologia.

"O excesso de fragmentação das disciplinas, transmitidas de modo isolado ao jovem, impede o aproveitamento significativo do aprendizado na vida dele", diz a diretora Esther Carvalho. Essa proposta de educação não é nova. A determinação existe há 11 anos, quando foram instituídas pelo Ministério da Educação (MEC) as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio.

Fora os colégios de elite das grandes metrópoles, que têm recursos para investimentos em pessoal e infraestrutura, a maior parte do sistema educacional não adotou os parâmetros. Com o Enem, as escolas foram forçadas a isso. "O exame se tornou uma cobrança oficial", afirma Heliton Ribeiro Tavares, diretor de Avaliação da Educação Básica do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

Aprovada pelo Enem
Diana ingressou em medicina com os resultados do exame, em 2008

Os professores também serão obrigados a se atualizar. Quem não voltar a estudar e valorizar a transmissão de um ensino inteligente, está fadado a ficar para trás. O aluno está antenado 24 horas por dia, por todos os meios possíveis, graças ao acesso à tecnologia.

Precisa, porém, aprender a organizar tanta informação. "Ele traz o novo ao professor", diz Gracia Klein, diretora pedagógica do Colégio Pentágono, em São Paulo. Esses profissionais não podem mais negar que os alunos pensam junto com o mestre.

Por exemplo, o professor que ignora a capacidade de quem alcança o resultado de uma equação por um caminho diferente da fórmula predeterminada não está aberto para a interação e o questionamento. E a figura autoritária não é respeitada pelo estudante do século XXI. Não é surpresa perceber que as escolas mais bem colocadas no ranking do Enem são justamente as que oferecem um ensino baseado na interdisciplinaridade e investem na formação da equipe.

Em São Paulo, professores de colégios badalados ganham em média R$ 7 mil, por 40 horas de aula semanais. Eles são titulados e recebem toda a estrutura necessária dos empregadores para aperfeiçoamento. "Depois da publicação dos resultados do Enem, escolas de outros Estados vêm nos visitar para conhecer a metodologia que aplicamos", diz Adilson Garcia, diretor do Colégio Vértice, o primeiro no ranking da capital paulista.

Em cinco anos, a escola passou de 600 alunos para 900, tamanha a procura. Para cada uma das 100 vagas oferecidas anualmente, há cerca de oito famílias interessadas. No Colégio São Bento, no Rio de Janeiro, primeiro colocado no ranking nacional do Enem, a constância do modelo de ensino é o que o leva ao sucesso. "Não preparamos o aluno para este ou aquele tipo de vestibular", diz Pedro Araújo, coordenador de ensino médio. "Procuramos dar uma preparação sólida."

Pensando no futuro
No primeiro ano do ensino médio, Caio já estuda com foco no processo de seleção para a universidade

Estudar numa escola com mestres motivados, bem estruturada e incentivadora do raciocínio traz confiança aos candidatos a uma futura vaga nas melhores universidades. "Estou sendo preparado desde já", diz Caio Becker, 16 anos, estudante do primeiro ano do ensino médio do Centro Educacional da Lagoa, no Rio de Janeiro.

Felipe Cabral, 17 anos, aluno do terceiro ano do Vértice, diz sentir segurança com o que aprendeu na escola para disputar uma das vagas de engenharia da computação em instituições de calibre. "Nenhum cursinho me prepararia melhor", afirma. Sua colega Andressa Mendonça, 17 anos, é da mesma opinião.

"Tive contato com pessoas de outras escolas e percebi que estou mais bem preparada", fala a jovem, que sonha com a carreira de arquiteta. O Enem se tornou um indicador de qualidade tão importante que pais de crianças já escolhem a escola dos filhos usando o ranking como critério.

Com dois filhos ainda no ensino fundamental, a arquiteta Carla Pimentel resolveu que eles deveriam ingressar numa escola que rendesse bons resultados no exame nacional. No ano passado, transferiu Maria Inês, 12 anos, e João Vitor, 14, para o Liceu Franco- Brasileiro, no Rio de Janeiro. "Escolhi o colégio porque está bem colocado no ranking", afirma. "Isso me dá a certeza de que há chances maiores de acesso a boas universidades e também no mercado de trabalho."

A preocupação é válida, mas precipitada. Primeiro por não existirem garantias - apesar de ser a hipótese mais provável - de que as escolas campeãs no Enem hoje continuem assim com o passar do tempo. Segundo, porque vale mais optar por uma instituição na qual os valores são semelhantes aos da família da criança.

"Não adianta colocar no colégio rígido por ser o melhor, se em casa a educação é mais liberal", diz Osmar Ferraz, coordenador de vestibular do Colégio Bandeirantes, em São Paulo. Por fim, deixar a criança numa escola em que ela não consegue acompanhar o ritmo puxado pode ser um massacre, que gera traumas e interfere na boa formação

Mobilidade estudantil
Para Miguel Jorge, concorrer em mais de uma universidade é vantagem da prova

"Com o novo Enem haverá uma democratização do acesso ao ensino superior. É um avanço"
Miguel Roberto Jorge, pró-reitor de graduação da Unifesp

Pais que desejam garantir uma educação de qualidade devem ficar atentos se a escola escolhida está adaptada às atuais regras do ensino fundamental. Antes, era obrigatório dos 7 aos 14 anos (da 1ª a 8ª série). A nova faixa etária vai dos 6 aos 14 anos (do 1° ao 9° ano). Além de um ano a mais de estudo, as diretrizes pedem espaço ao conceito de letramento, que significa ensinar as crianças a ler e escrever compreendendo a essência dos exercícios.

O raciocínio lógico também passa a ser valorizado desde cedo. É nessa linha que segue o Pisa (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Alunos), promovido a cada três anos pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mede o conhecimento entre jovens de 14 e 15 anos de diversas nações. E o Brasil vai mal. No último resultado, de 2007, os alunos brasileiros obtiveram médias que os colocam, entre 57 países, na 53ª posição em matemática, na 48ª em leitura e na 52ª em ciências.

Outra característica inovadora do Enem é a possibilidade de o candidato concorrer com a mesma prova em até cinco universidades federais. Um avanço que aumenta as chances de ingresso em instituições qualificadas e diminui o gasto com inscrições de vestibular e em deslocamento para realizar o exame.

"Democratiza o acesso ao ensino superior", diz Miguel Roberto Jorge, pró-reitor de graduação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que utilizará a avaliação como forma de ingresso único em 19 dos 26 cursos. A mineira Diana Salma, 31 anos, entrou na faculdade de medicina da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) em 2008 apenas com os resultados do Enem. "Por esse critério, fiquei em 14º lugar", comemora. Malvina Tuttman, reitora da UNIRIO, vê mais uma vantagem. "O exame incentivará a mobilidade estudantil pelo território nacional."

Mas nem todos os educadores estão otimistas com as mudanças. Os críticos dizem que estudantes do Sudeste que não alcançarem pontuação para estudar nas faculdades de seus Estados terão nota suficiente para cursar as instituições do Norte e Nordeste, tomando o lugar dos candidatos dessas regiões.

"Vamos provocar justiça social, ao permitir acesso a candidatos de várias partes do País, ou injustiça social, ao permitir que alunos locais sejam excluídos por pessoas que se preparam em colégios caros?", questiona Roberto Salles, reitor da Universidade Federal Fluminense.

A discussão retorna à necessidade de um investimento de impacto no ensino público para que a desigualdade social, ao invés de aumentar, ganhe menores proporções. O programa Ensino Médio Inovador é um caminho.

O projeto pretende mudar a organização curricular das escolas das redes estaduais. As 100 instituições que apresentarem até 24 de setembro propostas de inovação receberão financiamento do MEC. A intenção é estimular a diversificação de atividades integradoras, com ênfase na formação cultural do aluno.

Em três anos, o MEC espera que o Enem seja o principal processo de seleção de universidades públicas e privadas. "Todas as instituições vão perceber que esse é o melhor método", garante Maria Paula Dalari, secretária de Ensino Superior. Por enquanto, muitas acreditam que seu vestibular tradicional é eficiente.

"Consideramos o nosso sistema consolidado", diz Márcia Abrahão, decana de graduação da Universidade de Brasília (UnB), que usa o Programa de Avaliação Seriada, no qual, por meio de convênios com as escolas locais, acompanha o desempenho dos alunos a cada série do ensino médio desde 1995. "Nosso vestibular já privilegia argumentação, competências e habilidades", diz André Sarmantini, vice-coordenador de graduação da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas.

"Mas, se o exame evoluir, podemos incorporá-lo." E a avaliação pode melhorar ainda mais. A ideia é que em 2010 a prova seja realizada em duas etapas, tomando novamente como exemplo o SAT americano, que acontece em sete fases. Não demandaria um imenso teste e os alunos se preparariam mais.

Caso a evolução do Enem se concretize, juntamente com as mudanças positivas prometidas para os ensinos fundamental e médio, a esperança é que em dez anos, cálculo dos especialistas ouvidos pela reportagem de ISTOÉ, a educação brasileira forme pessoas mais preparadas para a vida - e resulte em uma nação cada vez melhor.

"O ENEM VAI REORIENTAR O ENSINO"

O ministro da Educação, Fernando Haddad, falou à ISTOÉ sobre os reflexos do exame nas escolas.

ISTOÉ - Por que só agora, 11 anos após sua criação, o Enem chegou a esse novo formato?
Fernando Haddad -
O Enem, no seu formato original, falhou no seu principal propósito, que era acabar com o vestibular tradicional. As principais universidades não viam o Enem como um instrumento adequado para seus processos seletivos nem os secretários estaduais viam no exame o formato adequado para orientar o currículo do ensino médio. Daí a mudança foi necessária e, em minha opinião, recebeu apoio em função de ter sido um formato negociado, tanto com os secretários estaduais quanto com os reitores.

ISTOÉ - Algumas universidades, como o ITA, dizem que não vão aderir porque sua seleção dá certo. Em quanto tempo acredita que todas participarão?
Haddad
- Estamos prevendo para as universidades federais um processo de transição de três anos. Nesse primeiro ano, 50 instituições vão utilizar o Enem como fase única e 26 universidades públicas vão usá-lo como componente da nota. Compreendo que algumas instituições, por adotarem um processo seletivo adequado aos seus propósitos, não tenham a intenção, nesse momento, de fazer do Enem a base de seu processo seletivo

"Hoje, em virtude do conteúdo excessivo, os professores têm pouca condição de aprofundar as disciplinas"

ISTOÉ - O sr. acredita que o conceito do novo Enem vai mudar o jeito de as escolas ensinarem?
Haddad -
Não tenho dúvida de que vai reorientar o ensino médio, fazendo com que diminua o conteúdo e permita o aprofundamento dos temas pertinentes a essa etapa de ensino. Hoje, em virtude do conteúdo excessivo, os professores têm pouca condição de aprofundar as disciplinas porque o currículo do ensino médio acabou se tornando uma espécie de sobreposição de programas de vestibular. É praticamente impossível não lançar mão de decorebas, fórmulas, etc., para dar conta da abrangência dos conteúdos que são cobrados nos milhares de vestibulares que ocorrem no País.

ISTOÉ - Quanto tempo a educação brasileira levará para mudar para melhor, graças ao novo conceito?
Haddad -
Minha expectativa é que o início da mudança ocorra a partir da adesão das universidades. Dependemos dessa adesão, para que o ensino médio consiga respirar aliviado, para cobrir um conteúdo mais inteligente, mais instigante. A velocidade da transição vai determinar a da mudança

"Desde que as notas médias do Enem por escola foram divulgadas começou um movimento de adaptação"

ISTOÉ - Muitas escolas de elite que não se saíram bem na avaliação de 2007 subiram dezenas de posições em 2009. Como isso foi possível?
Haddad -
Na interlocução com diretores de escolas particulares e públicas, percebemos que, desde que as notas médias do Enem por escola foram divulgadas pela primeira vez, em 2006, começou um movimento de adaptação das instituições de ensino.

ISTOÉ - Os alunos de escolas públicas não continuam em desvantagem, já que o problema é a qualidade do ensino nessas instituições?
Haddad
- Em primeiro lugar, as escolas públicas têm um investimento por aluno equivalente a 10% do que se investe em média no estudante de escola privada. E recebem o aluno em condições socioeconômicas muito mais desfavoráveis. A família é um determinante da educação dos filhos. A distância existe, mas entendo que é superável. Fixamos metas até 2022 para que a escola pública se equipare em qualidade à escola particular - que atende apenas 12% da população.

Hugo Marques


ELAS NÃO QUEREM SER AVALIADAS

O exame que confere o desempenho dos estudantes do ensino superior é rejeitado por importantes universidades

A USP de fora
Uma das mais conceituadas universidades do País não aceita as regras do Enade

Algumas das principais instituições de ensino superior do País se negam a participar do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), que avalia os alunos ingressantes e formandos das faculdades. A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) se abstêm do teste desde 2004, quando ele foi implantado.

Entre as justificativas, elas alegam a possibilidade de boicote por parte dos alunos, o que interferiria negativamente no resultado. "Antes da divulgação do resultado, a universidade deveria ter tempo de se adaptar para consertar as falhas apontadas", diz a educadora Neide Noffs, da PUC-SP, que participa do Enade.

A secretária de Ensino Superior do MEC, Maria Paula Dalari, acredita que essas universidades ainda se conscientizarão da importância do exame. "Ele é um instrumento para elevar a qualidade do ensino no País."