terça-feira, 25 de agosto de 2009

"Muitas mortes por gripe suína poderiam ser evitadas"

"Muitas mortes por gripe suína poderiam ser evitadas"

Autoridade em infecções respiratórias, a cientista explica por que a falta de leitos e de acesso ao remédio criou uma taxa "absurda" de letalidade no Brasil


Por Mônica Tarantino

Fotos: julia moraes/ag. istoé; sutt erstock; luiz
CUIDADO A especialista diz que os médicos precisam aprender a identificar os casos graves da doença

Desde que começou a pandemia de gripe suína, em abril deste ano, o número de horas de trabalho diárias da infectologista Nancy Bellei, 47 anos, subiu de nove para 14. A maior parte desse tempo é dedicada ao estudo do vírus H1N1 - agente responsável pela gripe suína - e ao atendimento dos pacientes com suspeita da doença internados no hospital da Universidade Federal de São Paulo. Preocupada com a qualidade da assistência, ela diz que muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Nancy tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais e é pós-doutorada em vírus Influenza, o causador das gripes. Nesta entrevista concedida à ISTOÉ, a médica critica os rumos do controle da epidemia no Brasil. Até a terça-feira 18, o País registrava 368 mortes por H1N1 e tinha 3.087 casos confirmados.

ISTOÉ - A taxa de letalidade da gripe suína no Brasil está em torno de 12%. O que isso significa? Nancy - Esse índice se refere ao percentual de mortes entre pessoas internadas. Até agora, foram hospitalizadas cerca de seis mil pessoas no Brasil com sintomas graves e suspeita de gripe.

Dessas, cerca de 1,5 mil tinham testes confirmados. Entre essas últimas, em torno de 12% morreram. Isso é um absurdo. É um índice altíssimo. Uma taxa baixa seria algo em torno de 2% para esses pacientes, já que, como dizem, é uma doença que raramente mata. Se fosse mesmo assim, não deveria ser de 12%.

ISTOÉ - Qual a causa disso? É a sobrecarga de pacientes nos serviços de saúde?
Nancy Bellei - Não. As pessoas não estão em pânico. Pânico é quando o indivíduo dá o primeiro espirro e corre para o pronto-socorro. Mas o que estamos vendo no serviço público é as pessoas chegarem entre 48 e 72 horas depois de os sintomas aparecerem, quando pode ser tarde demais.

E algumas vêm após terem passado por outros serviços. Eu mesma atendo pacientes com sintomas intensos que passaram por outros médicos, mas não tiveram indicação do remédio.

ISTOÉ - Então são os médicos?
Nancy - No Brasil, faltou e ainda falta treinamento para os profissionais que atendem nos postos e prontosocorros para identificar os casos graves e que podem se complicar.

ISTOÉ - Há limitações nos hospitais?
Nancy - Não existem no Brasil leitos em unidades de terapia intensiva para tratar todos os pacientes que precisam de cuidados. Há grande diferença na qualidade do atendimento prestado em uma UTI de um bom hospital privado e um leito desse tipo em pequenas cidades, por exemplo.

ISTOÉ - E quanto ao acesso ao remédio?
Nancy - É claro que uma situação de gripe é dinâmica e exige que sejam feitas adaptações nos protocolos de atendimento. Mas as mudanças constantes nas regras para distribuição do remédio causam confusão. Tivemos pacientes com complicações porque não receberam o antiviral.

Isso aconteceu inclusive com grupos de risco, como gestantes e hipertensos, porque as orientações anteriores não previam o tratamento de todos os casos que se enquadrassem nesta categoria. Isso mudou há cerca de três semanas.

ISTOÉ - A culpa é do governo?
Nancy - Foi necessário corrigir o fluxo da intervenção. Toda vez que você tem de corrigir é porque estava fazendo errado. Muitas vezes, em uma pandemia, nos deparamos com intervenções que não foram as mais adequadas. Em todos os países isso vai acontecer.

ISTOÉ - As autoridades de saúde estão preocupadas com o uso amplo do Tamiflu porque poderia contribuir para a resistência ao medicamento. Como vê esse cuidado?
Nancy - Essa é uma das questões mais equivocadas nessa história. A resistência tem duas formas. Uma delas independe do uso de antivirais. O vírus Influenza muda e de uma hora para outra pode se tornar reresistente em países onde ninguém usou o remédio. O segundo mecanismo é a seleção. Quando você toma a droga, mata os vírus sensíveis, mas, se tiver um resistente e isso é uma loteria , ele pode se multiplicar e ser transmitido. O fato é que o vírus resistente, que já apareceu em vários países, pode chegar aqui do mesmo jeito. Por isso, não usar para controlar a resistência é um engano. Devemos, sim, utilizar com critério e monitorar a resistência.

ISTOÉ - O medicamento deveria ser prescrito para todos os casos suspeitos?
Nancy - Sim. Para aqueles que o médico avaliar que o remédio trará benefício. Mas hoje só é dado para os grupos de risco e pessoas que apresentam falta de ar, febre e tosse. Existe também uma orientação que dá ao médico a liberdade de receitar se achar conveniente. Há uma relação custobenefício importante em tratar as pessoas com sintomas porque, dessa maneira, evita-se que os casos evoluam para as formas graves da doença.

ISTOÉ - O Ministério da Saúde foi pressionado para flexibilizar a distribuição do remédio?
Nancy - Houve uma ação conjunta da Associação Médica Brasileira, da Associação Paulista de Medicina e da Sociedade Brasileira de Infectologia para ampliar as regras de prescrição do remédio.

ISTOÉ - A sra. acredita que a ampliação do acesso vai salvar vidas?
Nancy - Com certeza. Muitas vidas poderiam ter sido salvas se isso já estivesse em prática. No início, quando tratávamos todo caso suspeito, não tivemos nenhuma morte. Isso é uma questão científica e médica.

ISTOÉ - Mas há o argumento de que pode não haver Tamiflu para todos.
Nancy - Isso é uma questão de gestão. O que não pode é estabelecer um fluxo de treinamento médico e de tratamento de uma situação clínica porque não há remédio. Também não posso deixar de colocar um doente na UTI e dizer que essa é a conduta correta porque não tenho leitos.

Fotos: julia moraes/ag. istoé; sutt erstock; luiz
"Muitas pessoas chegam aos médicos 72 horas depois de os sintomas aparecerem. Pode ser tarde demais"

ISTOÉ - A situação do Brasil é mais complicada do que parece?
Nancy - Sim. Mas exatamente por estarmos diante de recursos limitados é que precisamos saber quem são os mais atingidos e como gerenciar essa situação. Porém, os dados são defasados. Outra coisa importante é analisar o impacto da doença na vida de quem esteve internado. Metade dos doentes fica uma a duas semanas no hospital, na terapia intensiva, tomando muitos remédios. Há mães que tiveram bebês prematuros. Tudo isso não tem impacto importante?

ISTOÉ - Afinal, essa gripe é ou não é igual à gripe sazonal?
Nancy - Ela é diferente. É uma doença potencialmente grave para uma pequena proporção de indivíduos e que pode ter um caráter muito mais sério se não há recursos de saúde para esses pacientes.

ISTOÉ - Um estudo inglês publicado recentemente discutia os efeitos colaterais do Tamiflu em crianças. Houve mudança nas recomendações?
Nancy - Não. Na última semana, a Organização Mundial de Saúde divulgou um parecer dizendo que é para continuar prescrevendo o remédio para crianças. Podem haver efeitos colaterais, como náuseas e pesadelos, mas o risco de complicações é alto nesta faixa etária. Por isso, o benefício do remédio é muito maior do que o prejuízo.

ISTOÉ - O número de casos está caindo no Brasil, como sugere o governo?
Nancy - Em tese, é possível que entre outubro e novembro diminuam os casos na região Sudeste, dependendo da temperatura. Nesta semana, percebemos uma redução nos atendimentos feitos na Unifesp, mas não dá para saber o que está acontecendo. É necessário observar mais duas semanas para identificarmos se há uma diminuição real de infectados ou se a queda ocorreu por causa da mudança na prescrição do remédio. As regiões Norte e Nordeste têm outro comportamento para o Influenza. Lá os casos são mais numerosos em janeiro e fevereiro. Não sabemos se a taxa de ataque será maior nesses meses.

ISTOÉ - Nos Estados Unidos, avalia-se que o H1N1 pode fazer 100 mil vítimas fatais no ano que vem. Isso quer dizer que o vírus pode se tornar pior?
Nancy - Eles estão considerando que o vírus pode ficar mais agressivo. É possível pensar isso baseado em pandemias anteriores.

ISTOÉ - No Brasil, quantas pessoas podem ser atingidas pela pandemia numa segunda onda de casos?
Nancy - Em qualquer onda, a estimativa é que essa pandemia atinja até 30% da população, em um cenário mais pessimista, e 10% em uma situação mais favorável. Mas é preciso fazer uma estimativa real de quantas pessoas estão sendo atendidas nos hospitais para saber o que fazer no ano que vem e quantas doses de medicamento e vacinas precisaremos ter.

Fotos: julia moraes/ag. istoé; sutt erstock; luiz
"A pandemia pode atingir 30% da população, em um cenário mais pessimista, e 10% em uma situação mais favorável"

ISTOÉ - O que fazer na volta às aulas se os casos continuarem a aparecer?
Nancy - É preciso avaliar o tempo de ocorrência entre um caso e outro. Devemos observar entre dois e três dias para ver se não aparecem outros. Se não ocorrerem, saberemos que são casos esporádicos, porque a criança não se contamina só na escola. Mas se houver mais, em seguida, pode ser um surto local. Nos países do Hemisfério Norte, tem-se procurado tomar medidas como cancelar aulas numa sala por uma semana, por exemplo.

ISTOÉ - Como devem agir os pais?
Nancy - Se a criança tiver mal-estar ou dor de cabeça, mesmo sem febre, é melhor deixá-la em casa até o dia seguinte para ver como os sintomas evoluem. Se estiver febril, com temperatura por volta de 37,3 graus, também não deve ir para a escola. Apresentando febre e sintomas respiratórios, como tosse, é bom procurar o médico.


Créditos: Revista IstoÉ

http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2076/muitas-mortes-por-gripe-suina-poderiam-ser-evitadasautoridade-em-infeccoes-150048-1.htm

18 comentários:

jean disse...

Eu acho que não poderia ter sido evitado, nao temo eu acho, isso se espalhou porque fivcam iajando a trabalho, e passeio assim transmitem para outras pessoas.Mas se as pessoas se cuidarem e evitar andar em lugares com muita gente, assim podi ser que previna um pouco a propagação da doença.

Jean 2ºF

Jean disse...

Ser evitado? Acho que não,pois agora que esta onda de casos cessou é fácil dizer que poderia ser evitado.Nós temos que ver se será evitado da próxima vez.
Fazer especulações depois da crise é fácil,parecem até politicos depois do mandato:que não fizeram mas poderiam ter feito e na proxima vez vão fazer.
Os EUA que é um país desenvolvido com muitos recursos não conseguiram evitar,como o Brasil subdesenvolvido vai evitar algo deste patamar?

Jean Mendes
3ºC

Felipe Dutra disse...

Eu não sei se uma gripe como essa, tão facil de se espalhar e de tão facio contagio poderia ser evitada, ainda mais em um país como o Brasil, que não tem os seus hospitais e seu centro de saudade preparado para isso e para esse grau de epidemia.
Se País muito mais bem estruturados que o nosso conseguiram conter o contagio com a sua população o Brasil ia conseguir.
Resta saber se os políticos desse país desse vez vão fazer algo para que de uma próxima vez, não haja tantos casos de mortes como teve dessa vez.

Felipe Dutra 2G

Bruno jachson mendes disse...

Na minha opinião não poderia ser evitado pelo alto despreparo do governo em relação a esse virus , e nos fomos pegos de surpresa pois não sabiamos como lidar com esse virus , nem como conseguir uma cura para ela . isso não foi facil nem para os eua que são um pais desenvolvidos em questão de tecnologia . E guarde minhas palavras pois uma nova onde esta por vim e o brasil ira quebrar a cabeça pois já baixou a guarda deixou de fazer orientações a população bem como fazer pesquisas , e acelerar o antidoto





bruno jachson mendes 2°g

RENATA BRITTO disse...

Acho que não teria como evitar essa gripe até mesmo por que,isso começou quando as pessoas estavam com a imunidade baixa devido ao inverno.Mas acho que tem como se previnìr,é meio difícil não estar em contato com a população ou seja imposssível .Mas acho que se todos colaborarem com essa gripe podemos evita_lá .

mariza barboza disse...

O vírus da gripe está aí por todos os lados,sabemos dos cuidados que temos que tomar para não contraírmos o vírus, mas a vida continua e nada nos dá a garantia de que não iremos contraí-lo.
Devemos estar atentos aos sintomas e que seja diagnosticado a tempo de termos acesso ao medicamento.

Mariza Barboza

claitonjeske_ disse...

Esse vírus esta pelo mundo todo passando de pessoas para pessoa porque não sabiam,mas nem por isso agora sabendo ela acabou, não ela esta ai mas com menos força,nem por isso devemos de nos preveni devemos ter cuidado com ela porque ela é perigosa e esta ai.

claiton jeske 2ºG

Stephanie Prietsch disse...

Acho que seria muito difícil de ser evitada.
Mas como diz na prevenção, evitando lugares fechados com muita gente, sempre lavando as mãos e passando alcool quando possível. Evitando viagens para cidades contaminadas.
Como tem aquele velho ditado.
'MELHOR prevenir DO QUE remediar' É sempre melhor pensar antes de acontecer, do que depois que já aconteceu!

fernando disse...

EU acho que não teria como ter evitado !por queE acho também que as pessoas estão fazendo muito drama com essa nova gripe , com certeza se for para pegar a nova gripe era a hora de pegar!
Eu penso que as pessoas estão deixando de aproveitar varias atividades que faziam ,tudo por causa dessa nova gripe,as vezes ficam até trancadas dentro de suas residências !
ass; Fernando 2°F

leticia machado disse...

Acho que poderia ter sido evitado tantas mortes se tivessem liberado o remédio seguida que se foi constatada esta nova gripe.Ta certo que esse vírus era desconhecido e estava assustando as pessoas mas nada que virase um caos,a gripe matou,na minha opinião,mais por que alguém foi negligente, podendo evitar com a medicação o numero de óbitos, que isto sirva de lição para que as pessoas sejam mais alertas e higiênicas com sigo mesmas,pois também somos um pouco irresponsáveis e descuidados de nós.
LETICIA MACHADO 3C

Rafael de Lima disse...

Acredito que alguns casos poderiam ser evitados, em função de que não se havia uma estrutura em nossas unidades de saúde. Quanto as pessoas, seria muito díficil pararmos com nossas atividades em função da gripe... Mas agora já passou, infelizmente houveram algumas mortes. Espero que nosso sistema de saúde público melhore sua estrutura como precaução para uma nova "doença mundial".

Rafael de lima 3ºC

Jéssica Porto disse...

Na minha opinião desde que foi anunciado que a gripe estava se espalhando os governos de todos os países em área de risco eram para terem fechado as portas dos aeroportos,tanto para pessoas que iriam viajar a passeio ou a negócio,assim acredito eu que pessoas infectadas com o vírus não entrariam em contato com outras.A saúde também deveria ter tido um cuidado especial,já que pessoas com suspeitas da gripe se misturavam a pessoas que não apresentavam sintomas.
Jéssica Porto 3c

will torres 2° g noturno disse...

No inicio essa gripe abalou o governo e a população rapidamente.
Deixando muitas pessoas sem nenhum preparo fisico.
Mas como vamos evitar esse virus se espalhar se as pessoas tem que viajar para trabalhar e , além do mais quando os virus se espalharam as pessoas continuaram á ir em festa e bares....
Ou seja se ninguem ajudar não tem como conbate-la.
william i. torres 2° da noite

Anderson disse...

Eu acho que não poderia ser evitada muitas mortes por causa dessa nova gripe, pois guando ela chegou muitas pessoas estavam com a imunidade baixa por estar muito frio. mesmo que tenha pessoas que acham que ela poderia ser evitada ate poderia sim mas não aqui em nosso país pois levava mais de 40 dias para saber o resultado de um exame para identificar se a pessoa estava com o vírus H1N1.

NOME: ANDERSON SANTOS
TURMA: 3°C

luciana souza da costa disse...

Sim, acho que muitas mprtes poderiam ser evitadas, só no simples fato de terem recebido informações corretas, logo no início nenhuma informação correta era passada para a população.
Nós não queriamos justificativas mas apenas informações.
LUCIANA DA COSTA 2°F

bruno alves disse...

eu acho que essa gripe foi um sintoma quem veio com muita força,e ai quando o pessoal tento agi ja era tarde.Mas ainda o governo conseguiu alerta a população para não fazerem viagens mas ainda morreram muitas pessoas que foram a s que não conseguiram se cuidar a tempo.


Bruno Fagundes 2°

Thais disse...

Eu acho que poderia ter sido evitado muitas mortes se as pessoas não tive- se viajado antes de comesar essa epidemia, se os medicos desem o remedio para as pessoas com suspeitas, se as pessosa respeita-se o que os médicos pediam as pessoas ião as festas com muita gente e não estavam nem ai depois reclamavam que os hospitais estavam lotados e os médicos não atendiam.
Thais Botelho da Cunha 2-g

Monica Tarantino disse...

A matéria se refere à necessidade de treinamento para as pessoas que estarão na linha de frente do atendimento. As instâncias de decisão precisam ser mais rápidas para administrar uma emergência em saúde. Deveriam ter considerado as grávidas como grupo de risco desde o começo, pois é sabido que há uma baixa imunológica durante a gestação. Portanto, é sim necessário fazer revisões depois de tudo para aprender com os erros cometidos. Mônica Tarantino